A influência das redes sociais no comportamento das pessoas nunca foi tão grande — e quando esse poder se cruza com o universo das apostas, os impactos podem ser profundos. Segundo o psicólogo especializado em ludopatia Rafael Ávila, o papel dos influencers é hoje um dos principais fatores de agravamento do vício em apostas no Brasil.
Em entrevista ao Clube da Aposta, Rafael explica por que esse tipo de conteúdo é tão perigoso, como ele afeta diretamente seus pacientes e de que forma a ostentação e a falsa narrativa de sucesso distorcem completamente a percepção do jogo.
O Brasil e o poder dos influencers
Rafael Ávila destaca um dado alarmante:
o Brasil é um dos países mais influenciáveis do mundo quando o assunto é marketing feito por influencers.
“Já existem estudos científicos mostrando que, no Brasil, quem mais influencia o comportamento das pessoas são os influencers”, explica.
Diferente de outros mercados, o influencer brasileiro costuma se posicionar de forma mais “orgânica”, como alguém próximo, confiável e que faz parte da rotina do público. Isso cria um vínculo emocional poderoso — e extremamente perigoso quando aplicado às apostas.
A falsa promessa: “eu jogo aqui e ganhei tudo isso”
Um dos pontos mais críticos apontados por Rafael é a associação direta entre apostas e sucesso financeiro, construída de forma visual e simbólica.
Carros de luxo, mansões, viagens, relógios caros e apostas exibidas ao vivo criam uma narrativa implícita:
“Essa vida foi conquistada com apostas — e você também pode ter.”
O problema é que, na prática, essa riqueza não vem do jogo, mas sim da divulgação do produto.
“Essa mansão não foi conquistada jogando. Foi conquistada com propaganda. Não é uma questão moral. É uma questão de entender o que é o uso do produto e o que é a venda do produto”, afirma Rafael.
O influencer ganha dinheiro promovendo a plataforma — e não apostando nela.
Celebridades, cassino e a ilusão de segurança
Rafael relata que muitos pacientes chegam ao consultório com um argumento recorrente:
“Se o Neymar joga, então dá pra ganhar dinheiro.”
Esse raciocínio é extremamente comum — e extremamente perigoso.
Celebridades e grandes influencers:
- Não apostam com o próprio dinheiro
- Usam contas promocionais ou simuladas
- Não vivem as consequências reais das perdas
- Não têm o jogo como fonte de renda
Ainda assim, sua imagem valida o comportamento para milhões de pessoas.
Cassino, manipulação e teorias falsas
Outro problema frequente citado por Rafael é a proliferação de teorias conspiratórias, especialmente no cassino.
Casos como:
- “A roleta tem ímã”
- “O dealer controla onde a bola cai”
- “Existe um padrão secreto”
- “Esse método burla o sistema”
“Quando a pessoa acredita que o jogo é manipulado, todo o argumento matemático cai por terra. Ela pensa: ‘Se é manipulado, então eu posso manipular também’”, explica.
Isso mantém o jogador preso ao ciclo da aposta, sempre acreditando que está “a um passo” de descobrir o segredo.
Ostentação também vicia — mesmo sem discurso
Rafael chama atenção para algo ainda mais sutil: o poder da imagem, mesmo sem palavras.
“Basta o influencer estar com um carro de luxo e fazendo uma aposta ao vivo. Não precisa dizer que comprou o carro com apostas. O cérebro faz essa associação sozinho.”
Esse estímulo inconsciente é altamente danoso, especialmente para quem já está vulnerável emocionalmente ou financeiramente.
O impacto disso no tratamento psicológico
No consultório, Rafael enfrenta um desafio constante: desconstruir ideias que já chegam “blindadas” pelo discurso dos influencers.
“Muitos pacientes dizem: ‘Ele falou que vocês iam dizer que é aleatório’. Então a pessoa já chega desacreditando qualquer argumento técnico ou científico.”
Isso atrasa o tratamento, reforça a negação e dificulta a conscientização sobre o real problema.
Uma medida essencial: cortar a fonte do estímulo
Parte do trabalho terapêutico envolve uma ação direta e prática:
“A gente orienta a bloquear esses influencers, parar de consumir esse tipo de conteúdo e se afastar desse marketing predatório.”
Não se trata de censura, mas de preservação mental. Para alguém vulnerável, esse tipo de conteúdo funciona como um gatilho constante.
Conclusão
Segundo Rafael Ávila, os influencers não criam o vício sozinhos — mas aceleram, reforçam e normalizam comportamentos extremamente perigosos.
A ostentação, a falsa narrativa de sucesso e a romantização do jogo criam um ambiente onde:
- o risco é minimizado
- a perda é normalizada
- e o vício é disfarçado de oportunidade
Entender esse mecanismo é um passo fundamental para proteger quem aposta — e, principalmente, quem já está em risco.
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🔞 Jogue com responsabilidade
Perguntas frequentes sobre influencers e vício em apostas
Influencers realmente aumentam o vício em apostas?
Sim. Segundo Rafael Ávila, eles reforçam expectativas irreais e estimulam comportamentos de risco, especialmente em pessoas vulneráveis.
Celebridades apostam de verdade?
Na maioria dos casos, não. Elas atuam como divulgadores e não enfrentam as consequências reais do jogo.
Teorias de manipulação aumentam o vício?
Sim. Elas fazem o jogador acreditar que existe controle ou vantagem escondida, mantendo-o preso ao jogo.
Como se proteger desse tipo de influência negativa?
Reduzir o consumo desse conteúdo, bloquear perfis gatilho e buscar informação técnica e responsável.




